“É um clamor da injustiça ecológica e da injustiça social que implora urgentemente ser escutado (…) Queremos que nosso tempo seja lembrado como um tempo de responsabilidade coletiva e de cuidado amoroso para com a Mãe Terra e para com toda a vida.” (São Francisco de Assis, em Carta aos Governantes dos Povos)O Centro de Estudos Periféricos lamenta profundamente o falecimento do padre Antônio Luiz Marchioni, conhecido popularmente como padre Ticão, no primeiro dia do ano de 2021. Pároco da Igreja São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, na periferia leste da cidade de São Paulo chegou à sua comunidade em 1982. Desde então, o clamor da injustiça ecológica, da injustiça social, da responsabilidade coletiva e do cuidado amoroso representaram sua jornada como líder espiritual que teve uma fé baseada nas boas obras. Ele seguiu escrevendo várias cartas aos nossos governantes em forma de luta e participação política, condizente com a ordem dos franciscanos.De família ítalo-portuguesa de Urupês, interior de São Paulo, teve sua vocação muito bem recebida em uma família católica tradicional. Com intuito de se aproximar de Dom Evaristo Arns foi estudar Teologia em São Paulo na década de 1970. Antes mesmo de se ordenar padre, já acompanhava o bispo Dom Angélico de São Miguel Paulista, na periferia leste de São Paulo, na luta por moradia durante a ditadura militar.Quando se tornou pároco em Ermelino Matarazzo, na década de 1980, uma das suas primeiras atuações políticas foi na busca da legalização das ocupações da grande favela Santa Inês, vizinha à Igreja de São Francisco de Assis. A continuação do legado de Dom Arns e Dom Angélico estava em boas mãos. Aprendeu com estes mestres a criar espaço popular de diálogo dentro da sua comunidade, o que continuou fazendo ao longo dos seus 38 anos de ministério.Foi no salão social da Igreja São Francisco de Assis que diversas pautas foram discutidas, sempre com o objetivo de conseguir benfeitorias para a Zona Leste de São Paulo. Uma delas dizia respeito às mães que tinham filhos com deficiência sem um local próximo para atendimento. A partir das discussões na igreja na década de 1980, surge a Associação da Casa dos Deficientes de Ermelino Matarazzo (ACDEM), que ampliou sua atuação para outros distritos da Zona Leste, com o “compromisso de promover uma vida digna aos Deficientes e uma melhor qualidade de vida aos seus familiares, contribuindo com o desenvolvimento local e social da região leste de São Paulo”. (<https://www.acdem.org.br/histria)Ainda sobre a saúde, a demanda por um hospital na região fez com que uma grande luta por instalação de um equipamento público acontecesse nas plenárias de sua comunidade. O Hospital de Ermelino Matarazzo foi uma conquista realizada no ano de 1990.Outra pauta frequente nas plenárias era a educação. À frente do seu tempo, o padre Ticão já defendia a universidade pública na periferia desde a década de 1980. Os campi da USP (Universidade de São Paulo) em Ermelino Matarazzo e da Unifesp (Universidade de São Paulo) em Itaquera foram sonhados no salão social da sua comunidade. Estas conquistas demonstram a ousadia do padre Ticão em acreditar em oportunidades mais igualitárias para os jovens que vivem na periferia.Relembrar algumas conquistas sociais desse porte, nos faz perceber o quanto ele foi uma pessoa comprometida com seu povo.Padre Ticão foi a maior expressão do que é um movimento popular. Padre Ticão foi a síntese do povo em movimento.Seguiremos seu legado, empunharemos suas bandeiras, continuaremos essa história. Padre Ticão presente, presente, presente.Centro de Estudos Periféricos 02/01/2021

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