Manifesto do Centro de Estudos Periféricos

Historicamente, a população das periferias sempre foi afastada dos grandes centros de produção científica em um país onde o sistema universitário foi organizado para atender as necessidades de uma elite. Nas últimas décadas, pudemos presenciar um relativo aumento de nossa inserção nas universidades. No entanto, este aumento vem sendo atacado por uma série de medidas que visam destruir a universidade pública, concentrando ainda mais nas mãos de poucos uma estrutura que desde sempre foi concentrada. 

A pequena parcela das nossas e dos nossos que entraram nos espaços universitários teve seu pensamento subjugado, como se não tivéssemos capacidade de formular teorizações sobre nossa própria vivência. Logo nós, que vivemos a realidade com muito mais intensidade que os outros setores sociais. Isto posto, passamos a desconfiar dos pressupostos de uma série de estudos que, sem estar na nossa pele, explicavam nossa condição.

O Centro de Estudos Periféricos (CEP) é fruto de um tempo histórico. Tempo no qual se observa uma nítida defasagem entre a quantidade e a qualidade da produção intelectual da população das periferias e a sua presença nos âmbitos acadêmicos legitimados. 

Dessa forma, o CEP surge da necessidade desta periferia pensante de ter um espaço onde as nossas e os nossos possam compartilhar achados de pesquisa, discutir bibliografias, produzir conhecimento e discorrer sobre seus dilemas com as irmãs e irmãos das quebradas, sem sermos “exotizadxs” pelo nosso local de moradia, sem sermos colocados na posição de catadores de dados.

Engana-se quem quer nos acantonar no nicho de “especialistas da quebrada”. Nossa missão é produzir conhecimento para denunciar a sociedade de classes, o patriarcado, o racismo estrutural e as desigualdades socioterritoriais. 

Somos crias da quebrada e queremos o mundo.

Partimos de nossas subjetividades e vivências, assimilamos o conhecimento produzido pelos nossos ancestrais e pela humanidade para produzir uma teoria que faça sentido para nossos territórios, buscando sempre a melhoria das condições de vida a e emancipação política e humana de toda e qualquer vítima de opressões. 

Nós, moradoras e moradores das periferias, pensamos!

Nós, moradoras e moradores das periferias, produzimos ciência!

Nós, moradoras e moradores das periferias, elaboramos uma interpretação sobre as nossas quebradas e sobre o mundo!

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